Ensaio de Filosofia. Este texto discute uma hipótese científica em aberto e suas fronteiras. Distingue com rigor o que a física estabeleceu, o que ela mantém em disputa e o que pertence à interpretação filosófica. Não afirma que a ciência comprova qualquer tese espiritual.

It from bit.

Foi assim, em três palavras, que John Archibald Wheeler resumiu, por volta de 1990, a suspeita mais radical da sua longa vida. Wheeler não era um místico de fim de tarde: foi um dos maiores físicos do século XX, colaborador de Bohr, orientador de Feynman e o homem que popularizou o termo "buraco negro". Ao fim da carreira, esse físico rigoroso propôs que a base da realidade física não é a matéria nem a energia, mas a informação. Segundo a hipótese, todo "it" — toda partícula, todo campo, todo corpo — deriva, na origem, de "bits", de respostas a perguntas de sim ou não. Esta transmissão existe para levar essa hipótese a sério sem exagerá-la; essa disciplina — levar a sério sem exagerar — é o método que separa esta casa do balcão de misticismo quântico que lota a internet.

O primeiro registro: o que a física estabeleceu

Comecemos pelo chão firme, porque só quem pisa firme tem o direito de apontar o horizonte.

Está estabelecido que a informação é física. Não é abstração etérea: apagar um bit de informação tem um custo mínimo de energia, calculado por Rolf Landauer em 1961 e verificado em laboratório. Informação e termodinâmica estão amarradas. Está estabelecido também que, no nível quântico, a realidade se comporta de modo profundamente relacional e contraintuitivo: partículas existem em superposição de estados até interagirem, e o resultado de uma medição não está predeterminado da forma como a intuição clássica exige. Também está estabelecido que a ciência da computação quântica trata a informação como grandeza física fundamental, a ponto de o físico John Wheeler ter sido seguido por outros, como Seth Lloyd, que descreve o próprio universo como um processador de informação. Nada disso é especulação de guru. É física de departamento, publicada e revisada.

O segundo registro: o que a física mantém em aberto

No entanto, aqui a honestidade obriga a trocar o tom. Da constatação de que "a informação é fundamental" não se segue, de modo nenhum, que "a sua mente cria a realidade material"; é exatamente nesse salto ilegítimo que mora quase toda a indústria do misticismo quântico.

O ponto mais explorado é o papel do observador. Diz-se por aí que a física provou que a consciência colapsa a realidade. Não provou. Em física, "observação" e "medição" significam interação que deixa registro físico, e um detector, uma molécula de ar ou um fóton perdido "medem" tão bem quanto um humano. O fenômeno que faz a superposição parecer "colapsar" tem um nome técnico, decoerência, descrito por Zurek e Zeh, e acontece pela interação com o ambiente, em frações inimagináveis de segundo, sem necessidade de nenhuma mente. A hipótese de que a consciência causa o colapso existiu, foi levada a sério por von Neumann e Wigner, e foi abandonada pelo próprio Wigner ainda no século passado. Num levantamento feito entre físicos numa conferência sobre fundamentos da mecânica quântica em 2011, apenas uma pequena minoria atribuía à consciência qualquer papel no processo. O que permanece genuinamente em aberto é outra coisa, e é fascinante o bastante para dispensar exagero: por que existem interpretações tão diferentes e igualmente válidas da mesma matemática quântica (Copenhague, muitos mundos, Bohm, e outras), e o que, afinal, distingue o possível do atual. Isso a física não resolveu, e é honesto dizer que não resolveu.

Ao lado disso corre uma segunda pergunta aberta, formulada não pela física mas pela filosofia, e é a que dá nome a esta trilha. Em 1995, o filósofo David Chalmers enunciou o problema difícil da consciência: mesmo que expliquemos todo o processamento de informação do cérebro, resta o enigma de por que esse processamento é acompanhado de experiência vivida. Por que há alguém sentindo, e não apenas cálculo ocorrendo no escuro. A hipótese de Wheeler ilumina metade do quadro (a realidade como informação); o problema de Chalmers guarda a outra metade (o mistério de quem a experimenta). Entre as duas, um vão que ninguém, cientista ou filósofo, atravessou.

O terceiro registro: o que se pode, com honestidade, contemplar

É nesse vão, declaradamente, que este blog respira — não para preenchê-lo com uma afirmação disfarçada de ciência, mas para habitá-lo com a pergunta certa.

Se a informação é, como Wheeler suspeitou, a substância da realidade, então a palavra que demos ao nosso projeto filosófico deixa de ser trocadilho. In-formação: aquilo que dá forma por dentro. Ao longo de toda esta escada, nós lemos códigos: o código do dinheiro, o código dos sistemas descentralizados, o código genético da vida. A suspeita de Wheeler sugere que não estávamos usando uma metáfora conveniente em quatro assuntos diferentes: estávamos tocando, por quatro portas, uma mesma questão — a de que a realidade seja escrita e a de que ser escrito seja o modo como as coisas são.

Note o que fizemos e o que não fizemos. Não dissemos que a física prova Deus, a alma ou o poder da mente sobre a matéria. Dissemos que a fronteira mais avançada da física devolveu à palavra "informação" uma dignidade que a filosofia e as tradições espirituais sempre lhe atribuíram, e que, nesse encontro respeitoso entre dois territórios distintos, há espaço legítimo para contemplar. Contemplar não é concluir. É a diferença entre a nossa casa e o balcão.

O caminho

Se a realidade é, na origem, informação, e se a experiência de estar vivo é o mistério que a informação não esgota, então a pergunta prática deixa de ser abstrata e se torna a mais concreta de todas: quem está escrevendo em você e o que está sendo escrito? É o limiar do manifesto do Código IO, a próxima transmissão, onde este blog assume, sem disfarce e sem exagero, a sua filosofia própria.

Fica a pergunta desta noite, a que Wheeler deixou acesa e que nenhum experimento fecha: se, no fundo de tudo, a realidade for feita de informação, quem in-forma você, e com que direito?

Fontes consultadas

NOTA EDITORIAL // FILOSÓFICO

Este conteúdo é reflexão filosófica e não constitui recomendação científica, médica ou de investimento.

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